O diagnóstico, sozinho, não determina a incapacidade. A perícia avalia como a doença, o tratamento e as limitações interferem na atividade profissional de cada mulher.
Durante o Outubro Rosa, grande parte das informações se concentra na prevenção e no diagnóstico precoce do câncer de mama. Esses cuidados são fundamentais, mas há outra questão que também merece atenção: o impacto da doença e do tratamento sobre a capacidade para o trabalho.
Uma mulher em tratamento pode precisar se afastar temporariamente? Quais limitações a perícia considera? Por que duas pessoas com o mesmo diagnóstico podem receber conclusões diferentes sobre sua capacidade laboral?
A principal diferença está entre ter uma doença e estar incapaz para exercer determinada atividade profissional.
Diagnóstico e incapacidade não são a mesma coisa
O diagnóstico confirma a existência de uma condição de saúde. Já a incapacidade laboral ocorre quando essa condição impede ou limita a pessoa para realizar as tarefas exigidas por seu trabalho.
Por isso, o diagnóstico de câncer de mama não determina automaticamente que toda paciente esteja incapaz. Ao mesmo tempo, não se pode concluir que uma mulher está apta apenas porque consegue realizar algumas atividades do cotidiano.
Cada caso precisa ser avaliado individualmente.
Duas mulheres com câncer de mama podem apresentar diferentes tipos de tumor, estágios da doença, tratamentos, sintomas e respostas clínicas. Além disso, podem exercer profissões completamente distintas.
Uma mesma limitação pode produzir pouco impacto em determinada atividade e inviabilizar outra.
Segundo Caroline Daitx, especialista em Medicina Legal e Perícia Médica, essa distinção orienta a avaliação:
“O ponto principal da perícia é avaliar a capacidade para o trabalho, e não apenas confirmar que existe uma doença. Duas pessoas com o mesmo diagnóstico podem apresentar limitações muito diferentes.”
Como o câncer de mama pode interferir no trabalho?
O tratamento pode envolver cirurgia, quimioterapia, radioterapia, hormonioterapia e outras terapias. Cada uma delas pode provocar repercussões diferentes.
Entre os elementos que podem afetar a atividade profissional estão:
- fadiga;
- dor;
- náuseas e outros efeitos do tratamento;
- redução da força;
- limitação dos movimentos dos braços;
- linfedema;
- dificuldade para realizar movimentos repetitivos;
- redução da tolerância aos esforços;
- alterações de sono;
- dificuldades de concentração;
- necessidade frequente de consultas e procedimentos;
- maior risco de intercorrências durante o tratamento.
A existência de um desses sintomas não determina, isoladamente, a incapacidade. A perícia considera a intensidade, a frequência, a duração e a repercussão funcional de cada alteração.
Também avalia se esses sintomas estão documentados e se interferem nas tarefas que a paciente precisa realizar.
A profissão também faz parte da avaliação
A perícia não analisa apenas a doença. Ela precisa conhecer a atividade profissional da pessoa avaliada.
Uma limitação no movimento do braço pode ter impacto importante para quem precisa carregar peso, dirigir durante muitas horas, cuidar de pacientes ou executar movimentos repetitivos.
Por outro lado, uma atividade administrativa pode exigir concentração prolongada, cumprimento de prazos, atendimento ao público e manutenção de uma rotina contínua. Nesse caso, fadiga intensa, dor ou efeitos cognitivos do tratamento também podem comprometer o desempenho profissional.
Por isso, não basta classificar o trabalho como “leve” ou “pesado”. É necessário compreender as tarefas realmente executadas.
A pergunta central da perícia é: essa mulher consegue exercer sua atividade profissional com segurança, regularidade e desempenho compatível com as exigências da função?
Incapacidade total, parcial, temporária ou permanente
A conclusão pericial não se limita a dizer se a pessoa está “apta” ou “inapta”. Dependendo do caso, a incapacidade pode apresentar diferentes características.
Incapacidade total
Ocorre quando a condição impede a pessoa de exercer sua atividade profissional naquele momento.
Incapacidade parcial
A pessoa preserva parte de sua capacidade, mas apresenta limitações para determinadas tarefas ou condições de trabalho.
Incapacidade temporária
Existe a possibilidade de recuperação, estabilização do quadro ou retorno ao trabalho após determinado período de tratamento.
Incapacidade permanente
As limitações apresentam caráter duradouro e não existe expectativa razoável de recuperação suficiente para o retorno à atividade avaliada.
No câncer de mama, a incapacidade pode mudar ao longo do tratamento. Uma paciente pode precisar de afastamento durante determinada fase e, posteriormente, apresentar condições para retornar ao trabalho ou realizar uma atividade adaptada.
Por isso, a data da avaliação e o momento clínico fazem diferença.
Caso de contadora mostra a importância da avaliação individualizada
Um caso recente envolvendo uma contadora autônoma ilustra essa análise.
A profissional, diagnosticada com câncer de mama, passou por cirurgia, quimioterapia e radioterapia. Além disso, permanecia em acompanhamento oncológico e tratamento ou seguimento hormonal.
Segundo as informações divulgadas sobre o processo, a perícia judicial considerou a fadiga, a redução da tolerância aos esforços, a necessidade de acompanhamento periódico e as limitações para manter continuamente suas atividades profissionais.
O perito concluiu que ela apresentava incapacidade total e temporária naquele momento. Assim, a Justiça concedeu auxílio por incapacidade temporária durante 24 meses, com possibilidade de reavaliação posterior.
O caso demonstra que a conclusão não decorreu apenas do diagnóstico. A perícia relacionou o tratamento, as limitações identificadas e as exigências da atividade profissional.
O que a paciente deve apresentar na perícia?
Para que o impacto da doença seja adequadamente compreendido, é importante apresentar informações claras e atualizadas.
Podem ser relevantes:
- relatórios do oncologista e dos demais médicos responsáveis;
- exames de imagem e exames laboratoriais;
- registros de cirurgias, quimioterapia e radioterapia;
- relação dos medicamentos utilizados;
- descrição dos efeitos adversos do tratamento;
- documentos sobre limitações de movimento, força ou resistência;
- atestados com indicação do período de afastamento;
- informações sobre a profissão e as tarefas exercidas.
Um relatório que apresenta apenas o diagnóstico pode não explicar como a doença afeta o trabalho. Por isso, sempre que possível, os documentos devem descrever o tratamento atual, os sintomas, as limitações e a evolução clínica.
Por que uma avaliação pericial particular pode ser importante?
Muitas pacientes possuem exames e relatórios que comprovam o câncer de mama, mas ainda têm dificuldade para demonstrar de forma organizada como a doença interfere na atividade profissional.
Nesse momento, uma avaliação médico-pericial particular pode ajudar.
O perito particular analisa os documentos, a condição atual da paciente, as limitações funcionais e as exigências de sua profissão. A partir disso, pode elaborar uma análise técnica sobre a capacidade para o trabalho.
Esse profissional também pode:
- identificar informações relevantes para a avaliação;
- orientar a organização dos documentos;
- relacionar as limitações às tarefas profissionais;
- elaborar um parecer médico-pericial;
- formular quesitos;
- atuar como assistente técnico em processo judicial;
- analisar e discutir tecnicamente outro laudo pericial.
A avaliação particular permite apresentar a situação clínica de forma mais clara, completa e tecnicamente fundamentada.
Câncer de mama exige uma análise que vá além do diagnóstico
Segundo a Estimativa 2026 do Instituto Nacional de Câncer, o Brasil deve registrar 78.610 novos casos de câncer de mama por ano entre 2026 e 2028.
Por trás desse número existem mulheres com diferentes histórias, profissões, tratamentos e limitações.
Por isso, a perícia não deve partir da ideia de que toda paciente com câncer de mama está incapaz. Também não deve ignorar limitações reais apenas porque a pessoa mantém alguma autonomia em sua rotina.
A avaliação precisa compreender como a doença e o tratamento afetam aquela mulher, naquele momento e diante das exigências concretas de sua profissão.
O tratamento está interferindo na sua capacidade para o trabalho?
Se você está em tratamento contra o câncer de mama e precisa demonstrar como sua condição afeta sua atividade profissional, a Perícia Médica Popular pode ajudar.
Nossa equipe conecta você a médicos com experiência em perícia, preparados para analisar seus documentos, compreender suas limitações e avaliar tecnicamente a repercussão da doença sobre o trabalho.
Você também pode receber orientação para organizar a documentação, elaborar um parecer médico-pericial ou contar com assistência técnica em um processo judicial.
Solicite a avaliação do seu caso
Cada mulher vive a doença e o tratamento de uma forma diferente. Por isso, a avaliação também precisa ser individualizada.
Referências
- INCA: estimativa de câncer de mama para 2026 a 2028
- Caso da contadora com câncer de mama, publicado pelo Rota Jurídica
- INSS: auxílio por incapacidade temporária
Revisão técnica: Dra. Caroline Daitx, médica especialista em Medicina Legal e Perícia Médica, CRM/SP 194.404, RQE 94.143.